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O Jornal Popular da Ilha

Descaso: E eu com isso?!

Em se tratando do Planeta, não existe “fora”. O Planeta é UNO. Os espaços, assim como todas as formas de vida interagem em perene simbiose: cuidado é o apelo universal.

Fátima Guedes*

Há dias, nebulosidades intimidam o sol na Ilha Tupinambarana, Parintins, a 369 km de Manaus. Em sintonia com os apelos da Mãe Terra a chuva imperiosa dirige as atenções às plantas, ao solo compactado, à temperatura elevada e à remoção da lixarada (orgânica e sólida à deriva) espalhada sobre ruas, becos, esgotos. Calçadas e dezenas de lixeiras viciadas. Cumprida a tarefa, a chuva se recolhe por um dia em solidariedade ao Astro Rei; este também na conflitante missão de controlar o desequilíbrio ambiental instalado.   

O Cóio das Utopias, em seu singular recolhimento na periferia da Ilha se mantém vigilante aos recados e anúncios cósmicos para com a experiência agroflorestal em referência, resistindo a impactos destrutivos.  O Cóio é um pequeno território mantido na resistência e teimosia; é um quintal suburbano, diga-se, privilegiado: além de proporcionar qualidade de vida, abre-se para sábios e amorosos diálogos com as espécies vegetais e animais aí acolhidas. Naquela tarde, quando a chuva se recolhera em favor do sol, o céu matizou-se de um místico azul descortinando-se em palco cenográfico a centenas de Urubus. O infinito acolhia sobrevoos harmoniosos dos operários da limpeza* – saturados da indigesta e dolorosa missão; institivamente buscam na luz e nas alturas as fontes de purificação, de imunização. Já os ditos racionais não gozam de tal privilégio: sujam, poluem, destroem, contaminam-se… Sobra-lhes conviver com as mazelas autoproduzidas e com um Planeta saqueado, contaminado, condenado à extinção.

Benditos Urubus e suas místicas coreográficas! Sem Eles instala-se o caos cientificamente profetizado! Sim… uma coisa puxa a outra: do lixo apodrecido cuidam os Urubus. E quanto ao lixo sólido?!…  

Denúncias socioambientais ecoam esporadicamente sobre a capital brasileira do folclore*, porém, a embriaguez estrutural configurada no vazio das consciências e das irresponsabilidades político administrativas ignora ressonâncias de caráter interventivos transformadores. 

O último sussurro retumbara em dezembro de 2021, quando o Prêmio Feliciano Lana (Lei Aldir Blanc) contempla o Projeto EXcultura, do Artista plástico parintinense, Iran Martins, cuja temática traz apelos reflexivos à consumos e descartes inapropriados de resíduos sólidos cujos reflexos destrutivos castigam a paisagem urbana de Parintins/AM.

Na sequência das intenções, o Artista transfigura resíduos sólidos de longa duração em Mãos humanas, em Iguana, Cobra, Aranha, Molduras Cabocas e, a mais provocadora do ponto de vista crítico ambiental Postergar. Esta não merecera o mesmo local de destaque das demais (área próxima ao aeroporto Júlio Belém), talvez pelo acentuado perfil problematizador (???): fora postergada à margem da estrada Odovaldo Novo cujo acesso e visibilidade são esporádicos. O fato traz um questionamento: na atual conjuntura mundial, países ou regiões que priorizam educação, cultura (no real sentido), postergariam a Arte em questão sob a lógica do deixa pra lá?!… Em se tratando da dinâmica socioeducativa local é até entendível: o Projeto EXcultura se apresenta como ato transgressor à cultura fantasiosa midiatizada sobre a Ilha do Folclore: olhos são para ver; ouvidos para ouvir e consciências para intervir sabiamente. 

A propósito, Postergar personifica o desprezo ao indesejável, ao menos importante e se manifesta no ato de vomitar, de expurgar elementos tóxicos, nocivos… Trata-se de um termo latino: post = depois; tergo = dar às costas a algo ou ignorar o grau de importância sobre o objeto mirado, independentemente do plano – físico, humano, político-social. 

Por essa pegada, o Projeto propõe saídas viáveis no trato com resíduos sólidos; caracteriza-se também em anúncio educativo; em denúncia à ausência de políticas públicas socioambientais impactantes à Saúde da comunidade.    

Para maior clareza, o consumismo é a base das injúrias praticadas à Mãe Terra: forja necessidades, vaidades, sensações de prazer, de autorrealização, de apegos e vícios. Com o tempo, vêm o desgaste, os prejuízos materiais, financeiros, por fim, a inutilidade. A sensação anterior de prazer, de autorrealização transforma-se em problemas, em fardo indecifrável e até indesejável, além de sentimentos de perdas, tristezas e estresses. Tentativa de recuperação é a primeira alternativa, porém, no auge da desesperança, o descarte imediato é a saída. Hora de Postergar. Deixar pra lá. Jogar fora!… Eis a questão: onde e como jogar?!…

Em se tratando do Planeta, não existe “fora”. O Planeta é UNO. Os espaços, assim como todas as formas de vida interagem em perene simbiose: cuidado é o apelo universal. Em síntese, Postergar tece séria crítica às agressões ao ambiente natural, à indiferença desenfreada ao consumismo e às dinâmicas de descartes insalubres; também aponta caminhos, quando reutiliza o lixo ignorado ressignificando-o em estratégia artístico educativa. 

O perfil da Obra materializa-se num busto humano vomitando intensamente elementos desnecessários representados em descartes eletrodomésticos e eletroeletrônicos: geladeiras, fogão, máquinas de lavar, computadores, televisões, além de outros resíduos intoxicantes ao organismo planetário: motos, carros e bicicletas. O busto é revestido com peças de carro, motos, bicicletas; de televisão, máquinas de lavar e de geladeiras. Ressalta-se: as ruas de Parintins forneceram todo a matéria prima recolhida pelo Projeto.

A Obra de Arte Postergar, portanto, é um apelo em favor da saúde planetária, de estratégias socioeducativas e de ressignificação no tratamento do lixo. Reafirma-se também como metodologia libertária: sensibiliza despertares por bem viver; também propõe desafios de cuidados para com o Planeta, instigando o observador construir aqui e agora modos de vida saudáveis extensivos aos que sobreviverem à catástrofe sistêmica. 

Do que resta expor, Postergar propõe duas saídas: fechar os olhos às irresponsabilidades político-sociais, institucionais e individuais relativas a consumismo, a descartes insalubres ou, radicalizar a democracia interventiva, erguer a clava da autonomia cidadã e expurgar dos sistemas administrativos entulhos nocivos à sadia qualidade de vida: práticas políticas viciadas, consumismo desenfreado, indiferenças à saúde social comunitária, sistemas caóticos de educação e ensino… 

Com os pés firmes no chão arrisco na segunda trilha e postergo a toada viciosa da freguesia: – E eu com isso?!

 

Falares de Casa

Capital brasileira do folclore – referência midiática à cidade de Parintins.

Operários da limpezareferência de Zé Ramalho aos Urubus. 

 

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Uma das fundadoras da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta. Militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde (ANEPS). Autora das obras literárias, Ensaio de Rebeldia, Algemas Silenciadas e Organizadora do Dicionário – Falares Cabocos.

Foto: Floriano Lins

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