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“O Boi da Liberdade”, Garantido abre última noite do Festival de Parintins 2019

É assim que Lindolfo Monteverde (1902-1970) anunciou, na sua tenra idade, a chegada do seu boizinho de curuatá ao curral, invocando toda a relação afetiva entre o boi e os seres humanos.

Assim se fez e se faz o boi-bumbá Garantido até os dias de hoje: um ente da tradição do cancioneiro popular que reconhece, na existência do boi, a sua própria existência. Relação essa que transpassa uma simples troca de energia, para forjar e sustentar o compartilhamento da vida real e simbólica.

O primeiro urro do Garantido soa da Baixa de São José para o Mundo, e ressoa no Universo, do qual a aldeia é parte e todo ao mesmo tempo.

O legado de Lindolfo é o do canto à liberdade não só para os humanos, mas, também, para todos os viventes, porque o boi festejado não é o que morre, mas aquele que supera a morte, seja fugindo dela ou ressuscitando.

O boi herói que se disfarça na pele do boi de pano dá voz a outros bichos, à floresta, aos rios, ao ar e aos povos ameaçados pelos humanos escravizados pela ganância. Faz isso porque consegue se livrar das armadilhas que o colocariam na guilhotina.

E o seu salvamento se dá porque, certo dia, encontrou um amo-poeta que o libertou dos cercados e lhe ensinou a viver na imensidão do mundo.

O boi celebrado, portanto, é este Garantido que vive e viverá eternamente no coração, na mente e na memória do povo, o avatar libertador – e pelo qual ecoa o verbo denunciar – das angústias, das agonias, das fadigas do trabalho exaustivo, das injustiças.

O ser livre luta contra todas as formas de opressão, porque entende que o ser oprimido não se alegra, não canta a felicidade porque é infeliz. Assim, a dança, a música, as alegorias e o canto do Garantido são manifestações das lutas, das alegrias e da liberdade expressas do ser artístico.

Lindolfo, neto de negros escravizados, pescador e juticultor, jamais mediu as consequências de batucar os tambores destoantes da falsa hegemonia do opressor de ontem e de hoje. De tanto acolher a diversidade das gentes e suas culturas, o curral ficou pequeno; então o boi foi para a rua, e depois para o teatro a céu aberto.

O torcedor, o brincante e o artista do Garantindo são e serão sempre pessoas felizes, assim como Lindolfo é o ser mais feliz do mundo, já que ele vive no coração de cada um dos que vestem a camisa encarnada da luta, da alegria e da liberdade.

Assessoria do Bumbá

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