Parintins em Destaque
O Jornal Popular da Ilha

Silêncios Cumpliciosos

A nossa luta é todo dia; somos mulheres e não mercadoria.  (Marcha Mundial das Mulheres)

Por Fátima Guedes

Vinte e cinco de novembro de 1960.  Há sessenta anos, as irmãs Mirabal – Pátria, Maria Teresa e Minerva (“Las Mariposas”) foram cruelmente torturadas até a morte a mando do ditador da República Dominicana, Rafael Trujillo, em represália à luta das militantes dominicanas por Justiça Social. 

 Por vinte e um anos, após o crime institucionalizado pelo governo do ditador, clamores ininterruptos por Justiça retumbaram por todo o mundo. Na sequência, em 1981, em Bogotá/Colômbia, gritos mais potentes em favor do reconhecimento da data – um marco em defesa das mulheres e no combate à violência. A repercussão estremece muralhas patriarcais, e em 1999, trinta e nove anos depois, a Organização das Nações Unidas (ONU) institui o Dia Internacional de Combate à Violência contra as Mulheres. 

Os insistentes clamores – “Se matam três, brotam cem…” – instigaram inúmeras ações e, hoje, contribuem em revitalizar memórias locais, denunciando indiferenças, omissões, enfim, silêncios estruturantes. 

Retumbâncias em Parintins

Em referência ao dia 25 de novembro, há um ano, movimentos feministas de Parintins/AM entregaram à câmara de vereadores/as um Projeto de Iniciativa Popular, com mais de três mil assinaturas objetivando instituir no dia 08 de março, feriado municipal, a exemplo de centenas de municípios brasileiros.

O reconhecimento do Dia Internacional das Mulheres (08 de março) pela ONU aconteceu há quarenta e cinco anos. Muitos avanços e conquistas. No entanto, é bem visível ainda a exploração de trabalhos domésticos e de cuidados determinados como responsabilidade de mulheres, além de uma economia doméstica totalmente invisibilizada: informal e não remunerada. Tais elementos constituem-se limites, impossibilidades ou impedimentos ao progresso das mulheres e só contribuem para fortalecer as desigualdades, a divisão sexista do trabalho, e tantas outras violências silenciadas no universo das mulheres, em especial, das empobrecidas e sem escolaridade. 

 O pleiteado no Projeto – resultado do acúmulo e do protagonismo da luta das mulheres e movimentos feministas de Parintins – constitui-se um desafio. Haja cristalizações patriarcais determinantes! 

A propósito, a iniciativa visibilizara a luta de inúmeras companheiras cujas vidas são registros históricos de sangue e suor. Dentre Elas, Tia Leó, Ilza Azevedo, Jana Carla Michilles, Rosa Luxemburg, Margarida Alves, Dorothy Stang, Bertolina Ciça, Rosalina Folador, Gioconda Belli, Simone de Beauvoir, Frida Kallo, Mães da Praça de Maio, Marielle Franco e tantas outras de igual Valor. 

Além das razões expressas, o feriado municipal, 08 de março – Dia Internacional das Mulheres – proporciona a todas as Manas do Município de Parintins o direito de se absterem – ainda que por um dia – de quaisquer atividades funcionais/produtivas que lhes impeçam celebrar livremente o dia a Elas consagrado.

Silêncio, cumplicidade e libertação…

Considerando-se os argumentos em referência, o volume de assinaturas e a presença ativa dos movimentos de mulheres, na Câmara, naquele dia, não foram suficientes para sensibilizar a “casa do povo” declarar apoio à causa

O NÃO compromisso com as mulheres impôs à “casa do povo” submeter-se a uma lei orgânica, que exige a Projetos de Iniciativa Popular, dez por cento de assinaturas do eleitorado, quando a Constituição Federal determina “a partir de cinco por cento”. 

O NÃO compromisso declarado da “casa do povo” intimidara também as duas mulheres/vereadoras a abraçarem a causa… Provavelmente por dependências e submissões para com grupos e respectivos caciques contrários aos anseios de categorias marginalizadas, entre elas – as Mulheres.  

O NÃO daquela Casa Legislativa às mulheres de Parintins reafirma a discriminação – irmã gêmea da violência institucionalizada.

Se as Manas vereadoras sentiram-se incapazes e intimidadas em abraçar o Projeto Popular em prol de um dia de folga às mulheres de Parintins, no dia a Elas dedicado, Simone de Beauvoir deixa seu recado: Não se nasce mulher, torna-se mulher…  

É no despertar da autolibertação, da autonomia e da consciência de classe que nos tornamos verdadeiramente MULHERES… 

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). Foi fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta e Militante da Marcha Mundial das Mulheres, e da Articulação Nacional de Educação Popular em Saúde. Autora das obras literárias, Ensaio de Rebeldia e Algemas Silenciadas.

Fotos: Floriano Lins

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